domingo, 8 de fevereiro de 2015

Receita: bolo de alfarroba


O que a chia, linhaça, quinoa, soja, amaranto, chá verde, chá branco, tapioca, óleo de coco e a goji berry têm em comum? Todos já fizeram parte do hall dos alimentos da moda. O alimento milagroso da vez é a alfarroba.

A alfarroba veio como alternativa para substituir o chocolate, este que, nas versões 70%, dark ou 100% cacau, também já foi a bola da vez! Como nutricionista eu não poderia deixar de conhecer e experimentar...

Alfarroba é o fruto da alfarrobeira (ah vá?!...), também conhecida como Pão-de-São-João, originária do Mediterrâneo. Assim como os feijões (carioca, preto, fradinho, ervilha, grão de bico, lentilha, etc), a alfarroba também faz parte do grupo das leguminosas, mas tem sabor naturalmente adocicado.


Para esta receita não substituí nenhum ingrediente alergênico (como o ovo ou farinha, por exemplo) e não substituí o açúcar por adoçante. Procurei apenas utilizar a alfarroba no lugar do chocolate em pó como se fosse uma receita de bolo comum.

Vamos aos ingredientes!

3 ovos
4 colheres (sopa) de óleo
80 mL de leite desnatado
½ xícara (chá) de açúcar
1 xícara (chá) de farinha
100 g de alfarroba em pó
2 colheres (chá) de fermento químico em pó

Modo de preparo
  • Em uma batedeira adicione todos os ingredientes, exceto o fermento, e bata por cerca de 5 minutos, até que se obtenha uma massa homogênea, cremosa e aveludada.
  • Adicione o fermento e incorpore-o gentilmente à mistura.
  • Despeje em uma assadeira untada e leve ao forno preaquecido a 180ºC por aproximadamente 40 minutos.
Dica:

Você pode utilizar creme de alfarroba com avelã ou creme de chocolate com avelã como cobertura.


Alfarroba X cacau

Tanto a alfarroba quanto o cacau têm a coloração amarronzada e contém minerais e substâncias antioxidantes (que previnem o envelhecimento celular precoce e o câncer). A diferença é que a alfarroba não tem estimulantes (cafeína e teobromina), é rica em fibras (que auxiliam no funcionamento do intestino e no controle dos níveis de açúcar no sangue) e tem menos gordura que o cacau.

Em uma loja de produtos naturais de São Paulo comprei 3 produtos para experimentar: a alfarroba em pó, o tablete de alfarroba e o creme de alfarroba com creme de avelã.

Seguem as tabelas com a comparação das informações nutricionais dos fabricantes dos produtos de alfarroba e de chocolate:

Alfarroba em pó


Produto
Alfarroba em pó*
Cacau em pó**
Quantidade
1 colher de sopa (20 g)
1 colher de sopa (20 g)
Valor energético
76 Kcal
61 Kcal
Carboidratos
17,8 g
5,5 g
Proteínas
0 g
5 g
Gorduras totais
0 g
2,2 g
Gorduras saturadas
0 g
1,4 g
Gorduras trans
0 g
0 g
Fibra alimentar
1,8 g
7 g
*Carob House. Disponível em http://www.carobhouse.com/produto.php?id=5 (acesso em 2 de fevereiro de 2015).
**Harald. Disponível em http://harald.com.br/docecozinha/?page_id=32 (acesso em 2 de fevereiro de 2015).

Tablete de alfarroba



Produto
Tablete de alfarroba*
Chocolate ao leite**
Quantidade
1 tablete (25 g)
1 tablete (25 g)
Valor energético
116 Kcal
131 Kcal
Carboidratos
13 g
15 g
Proteínas
0 g
1,5 g
Gorduras totais
7,7 g
7 g
Gorduras saturadas
3,7 g
4,3 g
Gorduras trans
0 g
0 g
Fibra alimentar
0 g
0 g
*Carob House. Disponível em http://www.carobhouse.com/produto.php?id=4 (acesso em 2 de fevereiro de 2015).
**Lacta. Disponível em http://www.lacta.com.br/chocolates/barras-de-chocolate/ao-leite (acesso em 2 de fevereiro de 2015).

Creme de alfarroba com avelã


Produto
Creme de alfarroba com avelã*
Creme de chocolate com avelã**
Quantidade
1 colher de sopa (20 g)
1 colher de sopa (20 g)
Valor energético
103 Kcal
105 Kcal
Carboidratos
9,9 g
11 g
Proteínas
1,3 g
1,4 g
Gorduras totais
7,1 g
6g
Gorduras saturadas
1,1 g
2 g
Gorduras trans
0 g
0 g
Fibra alimentar
0,6 g
0,8 g
*Carob House. Disponível em http://www.carobhouse.com/produto.php?id=14 (acesso em 2 de fevereiro de 2015).
**Nutella. Disponível em http://www.ferrero.com.br/nutella (acesso em 2 de fevereiro de 2015).
Minha opinião

Não existe alimento “saudável” ou “não saudável” e nem alimento que faz engordar ou emagrecer. Tudo depende do açúcar, gordura e outros ingredientes adicionados às preparações ou produtos industrializados com alfarroba ou cacau que vamos consumir e também da quantidade e frequência com que ingerimos determinados alimentos ao longo do tempo.

Em relação à comparação entre os produtos, ficou “elas por elas” – são muito semelhantes sobretudo quanto ao valor calórico e de gorduras. Apesar da alfarroba conter fibras alimentares e baixo índice glicêmico, o teor de fibras dos produtos comparados foi menor ou igual aos originais, de chocolate/cacau.

O bolo ficou fofinho, macio, úmido, muito gostoso! Repetiria a receita caso quisesse uma outra opção de sabor de bolo para lanche da tarde ou café da manhã. É docinho, perfumado, a cor lembra o chocolate, porém tem um sabor marcante, característico. Mata a vontade de comer um doce, mas, para pessoas que não têm alergias e/ou intolerâncias, acho que só o chocolate supre a vontade específica de comer o chocolate.

Muitas vezes degustar um bom pedaço de chocolate é mais prazeroso e eficiente do que tentar fugir dele! Comer uma barrinha de cereal com uma casquinha que lembra chocolate e continuar com vontade... Depois comer um biscoito integral sabor chocolate e continuar com vontade... E depois comer uma fatia de bolo de alfarroba (que parece de chocolate e tem gosto de alfarroba) e continuar com vontade... E depois... E depois... Na tentativa de “sabotar” nosso paladar podemos acabar ingerindo um monte de outras preparações que não nos satisfazem e podem ser muito mais calóricos do que comer de fato uma porção do seu chocolate favorito!

É sempre interessante ampliar nosso leque culinário. Ter opções variadas para indivíduos que têm alergias e intolerâncias, ou para quem busca melhor qualidade de vida é excelente! Mas a informação aliada ao custo/benefício deve ser considerada para não cair no conto do modismo nutricional.


E voilà! Bom domingo!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Mito ou verdade? Suplementos de colágeno firmam a pele?



O conceito de beleza é um tópico constantemente discutido aqui no Fome de quê?. Os tempos mudam (o padrão de beleza também), mas mesmo com tantas correntes que favorecem a diversidade, a beleza natural e individual, desafio da foto sem maquiagem e sem filtro, da saúde em todos os tamanhos (health at every size), tenho a impressão de que a perseguição pela beleza e pela juventude muitas vezes extrapola os limites do possível e do saudável.

Não é à toa que, mesmo nos momentos de crise, cirurgiões plásticos, endocrinologistas, dermatologistas, nutricionistas, esteticistas, academias e cabeleireiros são procurados à espera de um milagre. E de mágico o mundo está cheio! Saem prescrevendo um monte de coisas – e enchendo o bolso de dinheiro.

Uma dos itens mais prescritos (e pedidos pelos próprios pacientes) é o colágeno.

Mas será que o colágeno é mesmo a fonte da juventude, da “pele perfeita”?


O que é colágeno?

É uma proteína responsável pela firmeza e elasticidade da pele e compõe a estrutura do cabelo, unhas e tendões.

Pra que servem as proteínas?

Para construção e manutenção de tecidos (músculos, órgãos, ossos, pele, tendões, unhas, cabelo...), hormônios e enzimas do nosso organismo.

Em quais alimentos encontramos as proteínas?

Encontramos proteínas em muitos alimentos, mas principalmente nas carnes (bovina, suína, aves, peixes), ovos, leites, queijos, leguminosas (feijões, soja, lentilha, ervilha, grão-de-bico), oleaginosas (pistache, nozes, amendoim, castanha de caju, do Pará) e sementes (de abóbora, girassol, linhaça).

Como as proteínas são digeridas e absorvidas?

Lembra do post sobre os casamentos perfeitos? Lá procurei esclarecer um pouco sobre as proteínas e aminoácidos para explicar porque o arroz e feijão, essência da alimentação do brasileiro, pode ser considerada uma das combinações nutricionais mais valiosas. Fiz um paralelo entre proteínas, aminoácidos, paredes e tijolos, de modo que a proteína fosse uma parede e os tijolos que formavam essa parede fossem os aminoácidos. Ao todo existem 20 tipos de tijolos, ou seja, 20 aminoácidos. Dependendo de quais, quantos e sequência de tijolos (aminoácidos) são utilizados, temos como resultado paredes (proteínas) diferentes.

Quando ingerimos os alimentos ricos em proteínas (ou suplementos/cápsulas de colágeno), as enzimas do nosso estômago e intestino as quebram em aminoácidos. Como nosso intestino não consegue absorver a proteína inteira (grande), só os aminoácidos conseguem atravessar nosso intestino para serem absorvidos.

Como nosso corpo reutiliza os aminoácidos?

Depois da absorção no intestino, nosso corpo utiliza esses aminoácidos para fazer proteínas conforme a demanda do corpo de cada um – uma parte pode ir para a cicatrização de uma ferida, a outra parte para a manutenção dos músculos, a outra para o sistema imunológico, a outra para fazer parte da pele... Mas como o colágeno é uma proteína e, como qualquer outra proteína é quebrada em aminoácidos para ser absorvido e o resultado é atender demandas específicas e variadas do corpo, não faz sentido algum consumir colágeno na esperança dele virar necessária e exclusivamente colágeno na sua bela cútis!

Gosto muito de pegar livros que tenho e estudar alguma coisa aleatoriamente. Por acaso, um dia desses li uma passagem fantástica:

“Dizer que é necessário ingerir colágeno para ter colágeno no corpo é tão absurdo quanto dizer que precisamos ingerir fígado para termos fígado, ou cérebro para termos cérebro.” (Slywitch, 2010, p. 83)

Genial!

Ora, Dr. Eric Slywitch, isto é absurdo para profissionais que utilizam a ciência para nortear condutas. Não para os obcecados pela beleza e juventude eternas, não para a indústria farmacêutica e tampouco para os profissionais que lucram com a ingenuidade alheia. Digo ingenuidade porque ninguém é obrigado a saber. Mas se procuram orientação do nutricionista, este deveria utilizar dos seus conhecimentos para ajudar o cliente/paciente, não para enganá-lo.

Não sou contra a suplementação. Existem pessoas que podem se beneficiar de complementos conforme suas necessidades individuais, reais, específicas e quando a alimentação é/está quali e/ou quantitativamente comprometida. Mas comer é um ato biológico, fisiológico, cultural, prazeroso e deve ser prioridade.

Ética, bom senso e conhecimento – sempre!

Fonte da juventude - Family Guy (Uma Família da Pesada)
Referência:

Slywitch E. Alimentação sem carne: guia prático: o primeiro livro brasileiro que ensina como montar sua dieta vegetariana. 2ªed. São Paulo: Alaúde Editorial; 2010.