quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Mito ou verdade? Suplementos de colágeno firmam a pele?



O conceito de beleza é um tópico constantemente discutido aqui no Fome de quê?. Os tempos mudam (o padrão de beleza também), mas mesmo com tantas correntes que favorecem a diversidade, a beleza natural e individual, desafio da foto sem maquiagem e sem filtro, da saúde em todos os tamanhos (health at every size), tenho a impressão de que a perseguição pela beleza e pela juventude muitas vezes extrapola os limites do possível e do saudável.

Não é à toa que, mesmo nos momentos de crise, cirurgiões plásticos, endocrinologistas, dermatologistas, nutricionistas, esteticistas, academias e cabeleireiros são procurados à espera de um milagre. E de mágico o mundo está cheio! Saem prescrevendo um monte de coisas – e enchendo o bolso de dinheiro.

Uma dos itens mais prescritos (e pedidos pelos próprios pacientes) é o colágeno.

Mas será que o colágeno é mesmo a fonte da juventude, da “pele perfeita”?


O que é colágeno?

É uma proteína responsável pela firmeza e elasticidade da pele e compõe a estrutura do cabelo, unhas e tendões.

Pra que servem as proteínas?

Para construção e manutenção de tecidos (músculos, órgãos, ossos, pele, tendões, unhas, cabelo...), hormônios e enzimas do nosso organismo.

Em quais alimentos encontramos as proteínas?

Encontramos proteínas em muitos alimentos, mas principalmente nas carnes (bovina, suína, aves, peixes), ovos, leites, queijos, leguminosas (feijões, soja, lentilha, ervilha, grão-de-bico), oleaginosas (pistache, nozes, amendoim, castanha de caju, do Pará) e sementes (de abóbora, girassol, linhaça).

Como as proteínas são digeridas e absorvidas?

Lembra do post sobre os casamentos perfeitos? Lá procurei esclarecer um pouco sobre as proteínas e aminoácidos para explicar porque o arroz e feijão, essência da alimentação do brasileiro, pode ser considerada uma das combinações nutricionais mais valiosas. Fiz um paralelo entre proteínas, aminoácidos, paredes e tijolos, de modo que a proteína fosse uma parede e os tijolos que formavam essa parede fossem os aminoácidos. Ao todo existem 20 tipos de tijolos, ou seja, 20 aminoácidos. Dependendo de quais, quantos e sequência de tijolos (aminoácidos) são utilizados, temos como resultado paredes (proteínas) diferentes.

Quando ingerimos os alimentos ricos em proteínas (ou suplementos/cápsulas de colágeno), as enzimas do nosso estômago e intestino as quebram em aminoácidos. Como nosso intestino não consegue absorver a proteína inteira (grande), só os aminoácidos conseguem atravessar nosso intestino para serem absorvidos.

Como nosso corpo reutiliza os aminoácidos?

Depois da absorção no intestino, nosso corpo utiliza esses aminoácidos para fazer proteínas conforme a demanda do corpo de cada um – uma parte pode ir para a cicatrização de uma ferida, a outra parte para a manutenção dos músculos, a outra para o sistema imunológico, a outra para fazer parte da pele... Mas como o colágeno é uma proteína e, como qualquer outra proteína é quebrada em aminoácidos para ser absorvido e o resultado é atender demandas específicas e variadas do corpo, não faz sentido algum consumir colágeno na esperança dele virar necessária e exclusivamente colágeno na sua bela cútis!

Gosto muito de pegar livros que tenho e estudar alguma coisa aleatoriamente. Por acaso, um dia desses li uma passagem fantástica:

“Dizer que é necessário ingerir colágeno para ter colágeno no corpo é tão absurdo quanto dizer que precisamos ingerir fígado para termos fígado, ou cérebro para termos cérebro.” (Slywitch, 2010, p. 83)

Genial!

Ora, Dr. Eric Slywitch, isto é absurdo para profissionais que utilizam a ciência para nortear condutas. Não para os obcecados pela beleza e juventude eternas, não para a indústria farmacêutica e tampouco para os profissionais que lucram com a ingenuidade alheia. Digo ingenuidade porque ninguém é obrigado a saber. Mas se procuram orientação do nutricionista, este deveria utilizar dos seus conhecimentos para ajudar o cliente/paciente, não para enganá-lo.

Não sou contra a suplementação. Existem pessoas que podem se beneficiar de complementos conforme suas necessidades individuais, reais, específicas e quando a alimentação é/está quali e/ou quantitativamente comprometida. Mas comer é um ato biológico, fisiológico, cultural, prazeroso e deve ser prioridade.

Ética, bom senso e conhecimento – sempre!

Fonte da juventude - Family Guy (Uma Família da Pesada)
Referência:

Slywitch E. Alimentação sem carne: guia prático: o primeiro livro brasileiro que ensina como montar sua dieta vegetariana. 2ªed. São Paulo: Alaúde Editorial; 2010.

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